Investidores reagem à confirmação do quarto mandato petista com fortes ordens de venda no exterior, disparada nas cotações futuras do dólar e preocupação com os riscos fiscais.
A confirmação da vitória eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva desencadeou um movimento generalizado de desvalorização dos ativos brasileiros nas primeiras negociações desta segunda-feira, 26 de outubro. No pré-mercado de Nova York e nas cotações cambiais negociadas na Bolsa de Chicago, títulos de grandes companhias nacionais e fundos de índices registraram perdas severas de até 31%.
- O ETF iShares MSCI Brasil (EWZ) despencou 26% no pré-mercado de Nova York após a contagem dos votos.
- Ações de grandes companhias brasileiras desabaram no exterior, lideradas por Braskem (-31,76%), Itaú (-28,5%), Bradesco (-26,8%) e Petrobras (-25,59%).
- O dólar futuro negociado na Bolsa de Chicago bateu o equivalente a R$ 5,58, registrando salto de 11,9% sobre a cotação comercial anterior.
- Um analista avalia que a Selic, hoje em 13,75% ao ano, pode nem chegar a 11% no mandato.
Desvalorização expressiva das empresas brasileiras no exterior
A abertura dos negócios internacionais refletiu uma onda imediata de liquidação de posições em empresas brasileiras. Os recibos de ações negociados nos Estados Unidos sofreram perdas abruptas logo no início da manhã, impactando diretamente os setores bancário, industrial e de energia.
A petroquímica Braskem liderou as perdas com uma queda de 31,76%, sendo cotada a US$ 1,16. No setor financeiro, o Itaú Unibanco recuou 28,5%, o Banco Bradesco caiu 26,8% e o Nubank teve baixa de 24%. Os papéis da Petrobras despencavam 25,59%, alcançando US$ 19,99, a menor cotação desde a véspera do primeiro turno da votação. Outras empresas relevantes também acompanharam a retração, como a cervejaria Ambev, com queda de 16,06%, e o Mercado Livre, com desvalorização de 10,3%.
Com o tombo generalizado, o ETF iShares MSCI Brasil (EWZ), que representa a carteira do mercado nacional em Nova York, recuou 26%. Essa intensidade de baixa colocou o pregão da B3 em alerta para a possibilidade de abertura sob acionamento do mecanismo de circuit breaker, que interrompe as negociações caso a queda do Ibovespa atinja 10% ou 15%.
Disparada do dólar futuro e desvalorização cambial
No mercado de câmbio, os investidores internacionais buscaram proteção imediata na moeda norte-americana. Na Bolsa Mercantil de Chicago (CME), o contrato futuro de real com vencimento em novembro de 2026 recuou 10,44%, sendo cotado a US$ 0,1788 por real.
Essa cotação equivale a uma taxa de R$ 5,5846 por dólar, o que representa uma variação de 11,9% na comparação com o fechamento da sexta-feira, quando o dólar comercial havia encerrado cotado a R$ 4,99. O economista Gustavo Rostelato, da Armor Capital, projeta o dólar a R$ 5,30 nos primeiros dias após a votação, enquanto Marcelo Mello, CEO da SulAmerica Investimentos, vê a moeda entre R$ 5,10 e R$ 5,20 no curto prazo. Em um grupo de mensagens do mercado financeiro, um integrante projetou juros a 17% e dólar a R$ 6,50.
Riscos fiscais, pressão sobre juros e aumento da dívida
A reação dos investidores decorre da preocupação com a gestão das finanças públicas durante o próximo mandato. As apostas anteriores consideravam um ajuste fiscal estrutural que permitiria a redução sustentada da taxa básica de juros, atualmente fixada em 13,75% ao ano.
Diante do resultado, um analista avalia que a Selic pode nem chegar a 11% no mandato. Para especialistas, a reação deve ser particularmente intensa no mercado de juros futuros, com expectativa de reversão de parte da queda de mais de 130 pontos-base registrada nos vencimentos longos após o primeiro turno. Além disso, projeções econômicas apontam que a dívida pública brasileira deve avançar dos atuais 83% para aproximadamente 95% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2030.
O quadro se agrava pela perspectiva de um ano desafiador em 2027, caracterizado por famílias endividadas, consumo doméstico enfraquecido e desaceleração do crescimento econômico. Em âmbito global, o aperto nas condições de crédito internacional torna a captação de recursos mais restritiva para países emergentes com problemas de endividamento.
Por que o mercado financeiro comemorou antes da hora?
O mercado financeiro havia construído convicção na vitória da oposição com base em modelos estatísticos internos e pesquisas de intenção de voto que mostravam o candidato derrotado numericamente à frente.
Essa percepção motivou forte valorização dos ativos entre o primeiro e o segundo turno, período em que o Ibovespa acumulou alta superior a 6%. Nos primeiros 13 pregões de outubro, o valor de mercado das empresas listadas na Bolsa aumentou R$ 515 bilhões. A confirmação da continuidade do governo federal frustrou essas apostas.
O que acontece se a Bolsa acionar o circuit breaker?
O circuit breaker paralisa as operações da B3 por 30 minutos quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento anterior. Se a queda atingir 15% após a reabertura, as negociações são suspensas por mais uma hora, evitando movimentos desordenados de pânico.
Qual foi o valor atingido pelo dólar futuro em Chicago?
O contrato de real para novembro de 2026 foi negociado ao equivalente a R$ 5,5846 por dólar, registrando uma variação de 11,9% em relação à cotação da sexta-feira anterior.
Como a vitória de Lula altera as projeções para a Selic?
As apostas do mercado eram de que um governo com maior controle das contas públicas abriria espaço para queda da taxa básica, hoje em 13,75% ao ano. Com a vitória de Lula, um analista avalia que a Selic pode nem chegar a 11% no mandato.
Para quanto pode subir a dívida pública brasileira?
Estimativas indicam que a dívida pública pode subir do patamar de 83% para cerca de 95% do Produto Interno Bruto até 2030.
Próximos desdobramentos econômicos
Analistas antecipam uma semana inteira de volatilidade na Bolsa, no dólar e nos juros futuros. Segundo Marcelo Mello, da SulAmerica Investimentos, o dólar deve encontrar um novo patamar de equilíbrio de acordo com as primeiras sinalizações econômicas do governo.




